Na Rua de Santa Sofia, em Vila Real, o Banif, provavelmente, pensando nos seus clientes e em especial naqueles que são deficientes motores, acaba de construir uma rampa que dá acesso ao seu interior e que permite a utilização da caixa multibanco do exterior através de uma cadeira de rodas.
À partida, até parece ter sido uma ideia interessante e cheia de boas intenções, mas, como diz o ditado, “de boas intenções está o inferno cheio”!
Como é possível, numa das ruas principais da cidade, alguém responsável autorizar a construção de tal “tamanco”? Sim, é isso que parece, não só a mim mas a outros observadores. Um tamanco que pode elevar alguns centímetros, mas que não deixa de ser feio e deselegante.
Por enquanto, limitei-me a fazer uma pequena observação, de ponto de vista estético e em termos de arranjo urbanístico, mas a questão é mais séria.
Uma rampa constrói-se para facilitar o acesso a toda a população. Não deve servir apenas aqueles que circulam em cadeira de rodas, mas também os que se movimentam, normalmente através da marcha ou com alguma dificuldade na mobilidade. Acima de tudo, uma rampa de acesso a qualquer espaço não pode ser, para qualquer cidadão, um obstáculo e muito menos um factor de insegurança ou de exclusão.
Aquilo que acaba de se construir, em frente ao Banif, não é uma acessibilidade, mas sim uma barreira. Embora facilite, de algum modo, o acesso ao banco, como lhe convém, impede qualquer transeunte de seguir em frente, quer se desloque a pé ou em cadeira de rodas, pois obriga-o a descer para um passeio de nível inferior.
Naquele espaço, imaginemos duas situações: um cego com alguma técnica de mobilidade, no seu percurso normal, desce a rua, sobe a rampa, encontra o patamar, desce dois degraus e segue em frente ou aprende a contornar o “tamanco”com a ajuda da sua bengala; um deficiente em cadeira de rodas desce a rua, sobe a rampa e no fim do patamar, com alguma perícia, projecta-se sobre os degraus e... ou, então, faz marcha atrás, sobe a rua, novamente, até encontrar uma rampa, passa para o passeio de nível inferior e, depois sim, segue em frente. Interessantes percursos!
Na arquitectura e no urbanismo, a acessibilidade tem sido uma preocupação constante, nos últimos anos. Actualmente estão em andamento obras e serviços de adequação do espaço urbano e dos edifícios às necessidades de inclusão de toda a população, o que não parece estar a acontecer na autarquia de Vila Real. Por exemplo: as rampas são escassas e algumas resumem-se a simples matacões; os postes, as árvores e os quiosques encontram-se no meio dos passeios; algumas placas de sinalização e alguns toldos de publicidade estão abaixo do nível que é de lei; os sinais sonoros nas passadeiras apenas se encontram no cruzamento do sinaleiro; alguns passeios permanecem, há anos, sem pavimento e com buracos, outros estão ocupados com esplanadas ou repletos de quinquilharias dos comerciantes; os carros invadem os passeios durante horas seguidas, enquanto os agentes da PSP multam os que estão estacionados nos parques pagos.
É bom que a autarquia dê mais atenção a estas situações e se apresse um pouco mais a resolvê-las, porque está a perder a carruagem da inclusão e do desenvolvimento. Certamente já tomou conhecimento, que a ACAPO (Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal) criou recentemente uma delegação em Vila Real, onde promove encontros e actividades com algumas dezenas de deficientes visuais. Por isso, começa a ser comum encontrar cegos, pelas ruas da cidade, nos seus percursos diários, deslocando-se para a escola ou para o seu local de emprego.
É bom que os autarcas aprendam a reconhecer aquilo que está mal feito ou o que é urgente fazer e não seguir o exemplo do autarca de Sabrosa que, em vez disso, face ao artigo “Castros e mamoas não dão votos”, publicado em 22 de Novembro de 2007, neste jornal, se limitou a responder, no semanário seguinte, com uma meia página de nada. Simplesmente, uma montra de vaidades!
Monday, January 07, 2008
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