Sunday, February 25, 2007

O prémio virtual da ministra

No dia 24 de Janeiro, tivemos conhecimento, pelos meios de comunicação, que o Ministério da Educação irá atribuir, já este ano, um prémio, no valor de 25 000 euros, ao “melhor” professor do ano. Poderão ser candidatos a este prémio professores dos 1.º, 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e Secundário. Para além do “Prémio Nacional de Professores”, assim denominado, serão, também, atribuídos “Prémios de Mérito”.
A corrida ao prémio já começou e não vai faltar concorrentes. Trata-se de um concurso e, nestas situações, muitos não vão querer perder a oportunidade. Se não puder ser a “cenourinha” da Ministra, que sejam uns pozinhos de protagonismo e alguma projecção mediática. As propostas de candidatura estão, conforme manda o regulamento, a ser preparadas. Cabe aos Conselhos Executivos e às Associações Profissionais de Professores propor os candidatos ao galardão, os quais poderão ser também indicados por, pelo menos, 50 docentes do mesmo Agrupamento de Escola ou do mesmo grupo disciplinar. Até ao dia 30 de Abril, terão de ser submetidas, electronicamente, na Internet. Só depois será possível conhecer os “super magníficos” e, mais tarde, o vencedor.
Tenho muitas reservas, quanto às finalidades deste prémio, embora a Ministra defenda que ele irá contribuir para a qualidade do sistema de Ensino e valorização da escola. Penso que não servirá para coisa nenhuma. Pelo contrário, irá provocar mais fricções entre os professores, uma vez que, ao tentar escolher “o melhor”, sempre cria injustiças, deixando de fora outros que poderiam preencher os mesmos requisitos.
Ninguém tem que receber prémio extra por aquilo que faz. É o seu dever fazer o melhor que sabe e pode. Por isso lhe pagam, mensalmente. É certo que alguns deveriam ver os seus vencimentos reduzidos, todos os meses, porque não cumprem os seus deveres. Mas, muitos nascem já dotados e, pela vida fora, não lhes faltam oportunidades para por os seus dotes à prova. Por isso, não fazem favor nenhum, em serem os melhores.
Não concordo com a atribuição de quaisquer prémios. No entanto, parece-me que deve haver, sempre, reconhecimento pelo trabalho excepcional que não tem que ser materializado. Às vezes, o seu autor gostaria, apenas, de o ver promovido, experimentado e aplicado por outros. Quantos exemplos de boas práticas não existem, pelo país fora? As Universidades têm conhecimento delas, com certeza. Porque não as divulgam? Têm medo de perder a posse do conhecimento e do saber? Porque não importam elas essas práticas e os seus actores e, com eles, preparam os novos e verdadeiros professores? Preferem continuar a patrocinar os “oportunistas do saber” que, por conveniência ou favorecimento, lá foram parar. Também não é um prémio nacional de professores que vai fazer mudar as coisas. Ele não trará nenhuma mais-valia, para o Ensino. Talvez surtisse algum efeito um concurso com centenas de prémios iguais, porque, assim, seria mais abrangente. As expectativas geradas poderiam motivar, de forma excepcional, os professores. E, consequentemente, dinamizar o ensino.
Com os critérios de selecção propostos, vai ser mais difícil à Ministra encontrar um “magister expert”, do que à Maria Elisa descobrir o “grande português”. Tanto um concurso como outro serão virtuais. A diferença está na acção. Os candidatos da Maria Elisa não precisam de fazer nada. Já fizeram tudo, noutros tempos e nem sempre bem. Há, mesmo, um candidato que só cometeu barbaridades e, no entanto, está bem posicionado. Agora, os candidatos da Ministra terão de se esfolar, isso sim. Só um “super-professor” poderá alcançar o troféu. Mas, para ser sério, só poderá ser virtual. Não é possível um candidato, num só ano, preencher todos os requisitos.
Tendo em conta o carácter de excelência do prémio, os candidatos propostos deverão: ter promovido o sucesso dos alunos e a qualidade das aprendizagens; ter promovido o desenvolvimento do ensino experimental das ciências e a criatividade nas escolas; ter promovido a diminuição do insucesso e do abandono escolares, bem como a inclusão e a integração de alunos em situação difícil; ter orientado a sua actividade profissional, tendo em conta processos de avaliação e reflexão sobre as práticas de ensino; ter colaborado com os pais e com a comunidade educativa, desenvolvendo esforços tendentes à integração social dos alunos; ter contribuído para a melhoria do funcionamento e da organização da escola; ter contribuído para a formação e integração de novos professores; ter contribuído para a difusão de boas práticas educativas. Vejam só!

Monday, February 12, 2007

Professor-tutor, sim!


À semelhança do que se vem fazendo noutros países da União Europeia, o Ministério da Educação pretende criar a figura de "professor-tutor".
Segundo o Secretário de Estado da Educação, Válter Lemos, o novo sistema prevê a criação de um professor central ou tutor no 5.º e 6.º anos de escolaridade, num regime de monodocência coadjuvada, que leccionará várias áreas.
Sindicatos de professores e responsáveis de algumas universidades contestaram já a ideia e, como será de esperar, prevêem-se fortes reacções da classe a mais esta iniciativa do governo de Sócrates. A discussão sobre esta figura será inevitável e irá ter a discordância de um grande número de professores, porque o que os preocupa não será a figura em si, mas as mudanças nas práticas pedagógicas, que ela implicará, e muitos não estarão dispostos a fazê-las. Como tal, todo o ser humano é adverso às mudanças, mas elas são necessárias, embora, se considere que não devam ocorrer todas ao mesmo tempo.
A criação da figura professor-tutor e as medidas que a acompanham, a serem postas em prática, irão de certa forma, revolucionar o Ensino Básico. Assim, passará a existir, não um “super professor” (como alguns já dizem), mas um professor aglutinador de conhecimentos, capaz de compreender melhor os alunos e gerir a interdisciplinaridade. Esta ideia poderá contribuir para a implementação da escola inclusiva, uma escola para todos, há muito adiada.
Sabemos que, tal como têm sido “ministrados” os conhecimentos, quase sempre com recurso à exposição directa, os alunos não se motivam, as aprendizagens não se efectivam e o sucesso escolar não se verifica. É preciso, de facto, mudar as estratégias de actuação, recorrendo cada vez mais às aprendizagens significativas através de projectos dinamizadores que permitam maior envolvimento dos alunos e professores. Esta modalidade de ensino pode ser implementada a este nível e será, com certeza, bem acolhida pelos alunos. Provam-no muitas das experiências que estão a ser realizadas pelo país fora.
O modelo de ensino multidisciplinar, tal como está ao nível do 2º ciclo, só servirá as pretensões de alguns professores, porque os mantém no seu “cantinho”. Dispensa-os de muito trabalho de grupo e de articulação curricular, mas, nunca servirá os alunos, porque não os motiva. A demasiada carga horária, o excesso de conteúdos e as matérias desajustadas às necessidades presentes são, também, factores impedidores de aprendizagem.
Este novo modelo prevê outros professores, para além do professor-tutor, os quais trabalharão de forma coadjuvada. Provavelmente, passará a existir uma equipa mais pequena de professores multidisciplinares. Contudo, esta redução de professores, por turma, favorecerá a articulação curricular que, por sua vez, permitirá concretizar o trabalho de projecto. Acima de tudo, facilitará a introdução de metodologias que proporcionarão novas e diferentes práticas pedagógicas. Só assim, os alunos passarão a ser os protagonistas das aprendizagens e os professores verdadeiros orientadores.
O presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra criticou a intenção do Governo de introduzir um professor generalista no 2.º ciclo, considerando que representa "uma infantilização" deste nível de ensino. Como pode alguém, com tanta responsabilidade, fazer tais afirmações?
Qualquer mudança ou transição provoca no indivíduo insegurança e frustração. Por isso, a criança, nestas idades, pode levar algum tempo a adaptar-se a uma nova situação. Essa adaptação será mais facilitada se, o número de adultos com quem vier a conviver, for reduzido. Também está cientificamente provado que os resultados pedagógicos serão substancialmente melhores se existir, no aluno, bom equilíbrio emocional. Também se pode assegurar, que as aprendizagens se processam melhor, se tiverem carácter lúdico ou se forem realizadas através de representações.
Estando, as crianças, numa fase de desenvolvimento, de encantamento e de primazia ao jogo, que mal fará aprender, brincando? Nada as impede de tratar assuntos sérios e de se desenvolverem, mentalmente.
Deixem as crianças viver a sua infância!
Deixem as crianças ser crianças!