Thursday, September 11, 2008

“Fumam-se provisórios, enquanto não há definitivos”

Aos moradores de Almodena, Fonte Nova e ruas circundantes, da freguesia de S. Dinis, em Vila Real, de nada lhes tem valido contrariar o voto PSD nas Autárquicas, votando PS. Até parece que estão a ser penalizados por isso.
Em termos de construção e arranjos urbanísticos, nada se tem feito, ultimamente. Permanecem de pé as aberrações dos prédios de Almodena, construídos ainda no tempo em que a Junta de Freguesia era PSD e mantêm-se, há mais de vinte anos, com aparência clandestina, as urbanizações Bairro Novo da Fonte Nova e Quinta das Botelhas.
É uma vergonha!
Os construtores não cumpriram o seu caderno de encargos, a Câmara não lhes fez exigências e as obras não foram concluídas. Depois deste tempo todo, as ruas assumem um aspecto degradante. O piso “está no osso”, os passeios não existem e o mato toma o seu lugar. De vez em quando, à procura de uns ramos verdes, passeiam, por lá, a toque de assobio e cajado, uns animais de quatro patas que largam, além da sua “fragrância”, algo parecido com azeitonas miúdas. Os candeeiros não foram, sequer, pensados. E a iluminação que existe, às vezes, é de “pisca-pisca”. Na urbanização Bairro Novo da Fonte Nova, pelo que dizem os moradores e segundo fontes da Junta de Freguesia, as baixadas eléctricas ainda são provisórias: “Fumam-se provisórios, enquanto não há definitivos”1.
A Câmara limitou-se, apenas, a dar o nome às ruas destas urbanizações, não avisou os moradores nem teve, sequer, respeito, pelos seus titulares, porque não as arranjou como devia para o dia do baptismo, nem lhes colocou as placas que mereciam. Mas, pelo que pude apurar, essas placas já existem, há muito tempo, só que nunca foram colocadas. Provavelmente, esqueceram- -se delas!
Em 21 de Junho de 2006, o Jornal “Notícias de Vila Real” avançou com a notícia “Almodena finalmente com placas toponímicas”, na qual a garantia da sua aquisição e respectiva colocação era dada por Nazaré Pereira, Vereador da Câmara Municipal, pelas suas palavras transcritas: “as placas estão todas encomendadas e começarão a ser colocadas logo que cheguem”, o que deverá acontecer durante o mês de Junho, como concluiu o referido jornal. A notícia referia, ainda, que a autarquia tinha investido 20 mil euros em cerca de 170 placas. Por isso, elas devem estar por aí, algures.
Graças ao voto de confiança dos eleitores naqueles que a têm representado, a freguesia de S. Dinis, de governação socialista, tem conseguido resistir ao poder social democrático que predomina neste concelho, desde que há eleições livres, em Portugal, com fortes prejuízos, para ela e seus residentes, em termos de desenvolvimento e investimento. Mas, Almodena é e sempre será o “parente pobre” das zonas da cidade. Contrariamente ao que deveria ter acontecido, a cidade desenvolveu-se e expandiu--se mais para nascente, com enormes prejuízos para a agricultura, destruindo propriedades e quintas de grande riqueza agrícola e em desfavor da parte poente. Provavelmente, os interesses e a especulação imobiliária falaram mais alto.
Se os Paços do Concelho e parte do centro histórico da cidade de Vila Real não se situassem nesta freguesia, a mesma já estaria dada ao esquecimento, definitivamente.
Só por isso se vai mantendo, provisoriamente...

1 Nota explicativa: (para os jovens leitores)
Em tempos, existiam duas marcas de tabaco económico sem filtro que eram concorrentes, mas semelhantes na forma da embalagem, na qualidade e no preço. Cada uma delas tinha os seus apreciadores. Sempre que os cigarros da marca “definitivos” se esgotavam na loja, os seus apreciadores optavam pela marca “provisórios” e, então, solicitavam-nos dizendo: “fumam-se provisórios enquanto não há definitivos”. E, assim, esta expressão passou a valer para tudo o que está por concluir.

Artigo Publicado no Semanário a Voz de Trás-os-Montes em 11 de Setembro de 2008

Wednesday, August 13, 2008

Plataformas “Bus” para quê?

Estão a ser instaladas, nas paragens dos transportes urbanos da cidade de Vila Real, umas plataformas que, segundo a Câmara Municipal, irão facilitar a acessibilidade aos cidadãos de mobilidade reduzida.
Pelo teor das notícias, os seus autores acham uma ideia brilhante e um projecto inovador, em termos de acessibilidades. Consideram-se pioneiros, mas não passam de meros seguidores, ao dar como exemplo a cidade de Barcelona, na aplicação da medida. Faz lembrar o Ministério da Educação, quando, há trinta ou mais anos, resolveu importar um modelo de edifício escolar e o implementou, em todo o país, sem ter em conta as diferenças climáticas das regiões. Para o caso, este factor não importa, mas estas duas cidades não têm comparação, em termos de grandeza, trânsito e movimento de pessoas. “Cada coelho na sua toca”! E não se vá confundir as coisas. Vamos, primeiro, pôr em prática aquilo que já existe, que é funcional e não tem custos acrescidos.
Compreendo o esforço que a Autarquia tem feito, através do Gabinete da Mobilidade, para encontrar soluções que permitam melhorar as acessibilidades, mas considero a colocação de plataformas uma medida desnecessária e até inadequada, para uma cidade como a nossa, onde as avenidas são raras e as ruas são estreitas. Mas, como a arquitectura urbanística nunca foi uma verdadeira preocupação para aqueles que a têm administrado, aceita-se a ideia: plataformas de betão, em vez de canteiros. Mais ridículo é querer justificar a sua utilidade, dizendo que as plataformas também servem para impedir que os carros estacionem naqueles locais de paragem. Então, para que servem as autoridades?
Há quatro anos que os transportes urbanos foram implementados na cidade de Vila Real, melhorando, provavelmente, o seu nível de utilização, a cada ano que passa. Inicialmente, foram criados percursos que, penso eu, ainda se mantêm, embora alguns devam ser corrigidos, pelo tempo de demora. Também foram criadas paragens em locais próprios que o motorista nem sempre utiliza. Umas vezes porque o espaço reservado ao autocarro se encontra ocupado por outros veículos, outras vezes porque ao motorista não lhe apetece fazer o desvio. Há, no entanto, paragens em locais impróprios, como, por exemplo, quando elas se verificam nos cruzamentos, nas curvas, ao lado de linhas contínuas e junto de passadeiras para peões e que é imperativo mudar.
Se as paragens estivessem devidamente situadas e sempre livres para o autocarro estacionar, de forma a recolher ou largar os passageiros junto do passeio, evitar se ia a colocação de plataformas que, de modo algum, vêm melhorar as acessibilidades. O desnível que passa a existir entre elas e o passeio também não deixa de ser uma barreira. As plataformas, por si só, já são uma barreira. Só servirão para facilitar a manobra ao condutor, com prejuízo para os outros motoristas que querem prosseguir a sua viagem. Tal como estão, deixam o autocarro implantado na faixa de rodagem, com uma fila de carros atrás, esperando que o motorista do autocarro deixe sair os passageiros, cobre os bilhetes ou verifique os passes dos que entram, impedindo, assim, o normal funcionamento do trânsito.
Esta é uma má medida, mas existem outras que, ao serem adoptadas, poderiam melhorar, substancialmente, as acessibilidades e facilitar a circulação de veículos e peões dentro da cidade. Por exemplo: se fossem modificadas ou desviadas algumas paragens para locais adequados; se a PSP tivesse um papel mais interventivo junto das paragens de transportes públicos e se marcasse mais presença nos locais onde o trânsito aflui com maior intensidade; se a mesma impedisse o estacionamento de carros em cima dos passeios; se rectificassem, em algumas ruas, o sentido do trânsito.
Vejam só! Na nossa cidade, o betão, depois de tanto se esticar para o ar, parece agora querer descansar. E, então, deita-se!

Este artigo foi publicado no Semanário "A Voz de Trás-os-Montes" no dia 14 de Agosto de 2008

Sunday, August 10, 2008

Os “Fecha a Roda”

Os de Chaves chamam aos de Vila Real "fecha a roda", Porque será?
Certamente, haverá pessoas da nossa cidade capazes de explicar esta “alcunha”, assim, atribuída aos vila-realenses.
Existem histórias brejeiras de outras terras, onde o termo se aplica. Não quero sequer imagina que ele tenha tido aqui a mesma origem. Mas, também não era nada do outro mundo, nem seria mal geral. Então, nos tempos de hoje! Há males piores, como aqueles que vou mencionar. E, aí sim, se aplicaria muito bem a expressão.
No bom sentido da palavra, entende-se por “fecha a roda” alguém que, num jogo ou brincadeira de roda como se faz sempre que se canta o “apita o comboio”, ao assumir o primeiro lugar da fila na posição de “locomotiva”, se vai colocar atrás do último, fechando a roda.
Já todos nós notámos e logo dá conta quem chega de outras paragens que a sociedade de Vila Real funciona, em termos mais ou menos semelhantes, por rodas. Assim, existem, pelo menos, três rodas que correspondem às seguintes camadas sociais: os “óptimos”, os “bons” e os “fraquinhos”. Os “óptimos” são os que se auto-titulam de alta sociedade, aqueles que, normalmente, fazem questão de aparecer nas primeiras filas dos auditórios ou frente às tribunas, sempre que há espectáculos importantes ou comemorações; os “bons”, são aqueles que, não fazendo ainda parte desta elite, se esforçam por lhe pertencer; os “fraquinhos” são o resto da população, independentemente de serem ou não pessoas cultas e bem formadas, como se entende.
Na classe superior que referi existem grupos que se relacionam, entre si, de modo “fecha a roda”. Fazem as suas amizades, desenvolvem as suas conversas, auto-elogiam-se, tomam o chá juntos, mas não em qualquer café, claro. O grupo só se alarga se aparecer alguém mais nobre ou, então, alguém que permita dar um certo “décor” à roda. Se surge um intruso, logo de imediato se fecha a roda e ele fica de fora. Esta gente, às vezes, torna-se simpática e aberta, fora do seu círculo de amigos, numa relação mais individual, mas em grupo, reage com altivez, desvia o olhar de quem passa e não cumprimentam a outra gente que considera “fraquinha”.
Este termo “fecha a roda” também se aplica, perfeitamente, à nossa classe política local, no que toca à defesa dos seus interesses partidários, profissionais e familiares.
Se fizermos um pequeno levantamento, verificaremos que as instituições públicas e algumas semi-privadas se formam nesta base. Basta observarmos quem as constitui, a forma como estão organizadas e a quem encomendam os serviços. Cada uma delas é uma roda. Pelo menos, as instituições ou empresas que laboram com o dinheiro dos contribuintes deveriam ser geridas com mais transparência, seguindo o exemplo que passo apresentar. Uma Câmara Municipal de um concelho vizinho solicitou três propostas para a elaboração do seu boletim a três empresas diferentes. Perante as respostas, optou pela mais económica e publicou os valores das propostas dos concorrentes. Está provado que os trabalhos executados pelas mesmas empresas, com o tempo, perdem qualidade, ficam mais caros, permitem a promiscuidade nos negócios e favorecem uma política de “fecha a roda”. Na diversidade é que está o ganho! Mas os nossos governantes não aprendem, ou melhor, não querem aprender. Porque será?
Recentemente, tivemos conhecimento pelos órgãos de comunicação local, das comemorações do 83º Aniversário da elevação de Vila Real à condição de cidade e as cerimónias de condecoração e entrega de medalhas a algumas empresas e outras tantas individualidades. Pelas palavras proferidas, no momento, Manuel Martins, Presidente da Câmara Municipal, entende que estas distinções são de elevada importância para a comunidade vila-realense, dizendo: “Há pessoas que têm tido um papel relevante, no nosso conselho, um papel acima da normalidade e é por essa razão que premiamos estes cidadãos e entidades com uma medalha de mérito”.
Eu não entendo assim. Isto é puro exemplo de política “fecha a roda”, que beneficia e gratifica quase sempre os mesmos e a mesma classe. Esta prática já está fortemente enraizada na sociedade vila-realense de “faz de conta”. Algumas condecorações até se tornam ridículas. Porque, se há-de galardoar quem sempre teve as portas abertas para o enriquecimento fácil? Ao gratificar estes, quantos ficaram de fora, mais empreendedores, mais sérios, mais dotados. Talvez, com menos oportunidades!

Artigo publicado no Semanário "A Voz de Trás-os-Montes" em 31 de Julho de 2008

Friday, July 25, 2008

Finalmente! Mas fora de tempo

Ao fim de muitos anos de espera, as populações de Arnadelo e Pomarelhos, da freguesia de Torgueda, começaram já a usufruir da rede de esgotos, recentemente concluída. Das nove localidades da freguesia, foram estas as primeiras contempladas. Resta agora saber para quando as restantes poderão vir a beneficiar deste bem essencial.
Pena foi que este serviço chegasse, tão tardiamente, a estas localidades. Se tivesse surgido há uma dezena de anos, poderia ter impedido a fuga de muitas famílias para a cidade de Vila Real e, assim, evitado a desertificação destas aldeias. Claro que este fenómeno da desertificação não se deve exclusivamente a este factor, mas quantas famílias quiseram construir a sua moradia nestas povoações e só o não fizeram por falta das infra-estruturas básicas, necessárias a uma construção com condições de habitabilidade.
Referindo-me, particularmente à aldeia de Arnadelo, em tempos uma das mais prósperas e com mais habitantes, está hoje transformada numa “aldeia deserta”, ruas completas de casas, sem ninguém para nelas morar. Como foi possível deixar chegar uma aldeia que dista escassos quilómetros de Vila Real a este estado de desertificação? Certamente, todos teremos uma quota-parte de culpa, porque, à procura de bem-estar, abandonamos, de forma fácil, as nossas origens. Mas, o nosso município e os seus governantes são os principais responsáveis por esta situação, porque sempre privilegiaram a cidade, em desfavor do meio rural. Todos os investimentos levados a cabo, nos últimos trinta anos, tiveram sempre uma única direcção, a cidade de Vila Real. Ao mesmo tempo, exemplos contrários poderiam apreciar-se nos concelhos limítrofes, onde as infra-estruturas básicas (caminhos/estradas, redes de água, esgotos e saneamento) levavam alguns anos de avanço.
O procedimento das nossas autarquias faz-se ao contrário do que prevê a Constituição da República. No seu art.º 90, refere que “os planos de desenvolvimento económico e social têm por objectivo promover o crescimento económico, o desenvolvimento harmonioso e integrado de sectores e regiões, a justa repartição individual e regional do produto nacional, a coordenação da política económica com as políticas social, educativa e cultural, a defesa do mundo rural, a preservação do equilíbrio ecológico, a defesa do ambiente e a qualidade de vida do povo português”.
Se reflectirmos um pouco sobre estes princípios, verificaremos que o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, foram completamente ignorados, pelos nossos políticos, representantes da Nação, em geral, e pelos governantes locais, em particular.

Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 17/07/2008

Thursday, April 03, 2008

O impacto da notícia

“Vídeo de agressão à professora” foi título de notícia, há duas semanas, e, ultimamente, não se tem falado de outra coisa. Uma aluna desafiando, de forma agressiva, uma professora, por esta lhe ter retirado o telemóvel que estaria a utilizar, em plena sala de aula.
Porque razão é que esta notícia teve tanto impacto?
Em primeiro lugar, pela forma como o jornal “Expresso” a descreve e a apresenta, “on line”, acompanhada do vídeo, difundindo as imagens da situação ocorrida. No meu entender, num estilo desnecessariamente “sensasionalista”. Em segundo, pela sua actualidade, pois que, presentemente, se tem discutido muito sobre as políticas da Educação: “avaliação dos professores”, “estatuto do aluno” e “autonomia e gestão de escolas”. Em terceiro, pela sua proximidade e abrangência. É um assunto que diz respeito a todos, “pais e filhos”, e é resultante de um conflito de âmbito escolar.
Sobre o ocorrido, todas as pessoas quiseram dar a sua opinião: na rua, discutiam o assunto, umas com as outras; no local de trabalho, os colegas contavam o sucedido, uns aos outros; nos jornais, os escritores de opinião davam os seus pareceres; na rádio, os comentadores davam a palavra aos ouvintes; na televisão, os comentadores políticos analisavam os factos e apresentavam algumas receitas para a educação; os cibernautas retratavam as imagens e descreviam a situação, com um certo humor.
Sobre o assunto, em questão, ninguém deixou de dar o seu palpite. Parecia tratar-se de uma notícia sensacional do tipo “O homem que mordeu o cão”. Os comentários surgiam, em catadupa, de todas as formas e feitios. Dos mais sensatos aos mais disparatados, mas todos interessantes: “Tenho trinta anos e, no meu tempo de escola, nunca vi uma coisa destas!”, “Duas semanas a lavar casas de banho da escola e resolvia-se o caso... mas não se pode, as crianças são o melhor do mundo!”, “A professora não tem autoridade nenhuma. Viu-se. É o espelho de toda a classe, é o jogo de espelhos em que se transformou esta sociedade.”, “A culpa não é da aluna! A culpa desta situação é dos pais da aluna.”, ”A falta de educação destes miúdos é de bradar aos céus!”, “Alguém sabe o que é uma cana da índia? No meu tempo, a professora tinha uma, na secretária, caso alguém não fosse de todo correcto levava com ela, já para não falar da bela régua de madeira…”, “Acho que, na medida certa, devia ser permitido “bater” nos alunos! Eu levei uns “calduços”, na primária, e não me fez mal nenhum. Não sou nenhuma traumatizada.”, “Esta aluna é um exemplo típico de uma geração “perdida”, uma geração “rebelde”, que se baseia em grupos musicais, telenovelas, internet, etc. Na realidade, esta miúda não passa de uma “pita”, com a mania que é melhor que a professora, que a pode controlar”, “Dão telemóveis às criancinhas, viciam-nas, tornam-nas dependentes desse aparelho, e, depois, não querem que os levem para as aulas?”, “Talvez, um dia, o telemóvel venha a ser um material escolar obrigatório, na aula, como é o livro e o caderno”.
Estes comentários levam-nos a concluir que as pessoas interpretam os factos e dão as opiniões, um pouco da forma como foram ou são educadas, mas, de uma maneira geral, quase todas são unânimes em culpar a aluna, pela “birra” ou “agressão”, considerando que ela deveria ser penalizada. Já, no meu entender, não fará sentido nenhum a sua transferência para outra escola, como castigo a aplicar. Compreendo que seja uma das medidas previstas no estatuto do aluno, mas, nesta situação, não se enquadra. Então, um mau exemplo que não serve para uns, há-de servir para outros? E em termos de aceitação? Que colegas vai ela encontrar? Com quem vai ela fazer amizades?
Este acontecimento, se não fosse filmado e divulgado, como foi, não passaria duma pequena “tempestade num copo de água”. Há, todos os dias, problemas idênticos a estes, nas nossas escolas. E, no entanto, os professores resolvem-nos. É uma questão de saber gerir conflitos. Não podemos branquear os factos, mas temos que enquadrar o sucedido no tempo presente, como reflexo de uma sociedade complexa, em mudança de mentalidades e alteração de valores.
Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 03/04/2008

Wednesday, March 26, 2008

Um autêntico “atentado”

Um autêntico “atentado” à classe dos professores é o artigo publicado, no jornal “Correio da Manhã”, há duas semanas atrás, da autoria do jornalista Emídio Rangel.
O artigo, feito circular entre os professores, via e-mail, por alguém mais atento, logo após a sua publicação, gerou na classe uma enorme onda de revolta. Como se já não bastasse a pressão do Ministério da Educação, com as medidas da avaliação de desempenho dos professores, para os irritar, surgem também intrusos como este, tendenciosos, numa estratégia de tensão, lançando achas para a fogueira. Perante tais afirmações, qualquer leitor consciente, as repudia. Autênticas provocações reaccionárias que só podem ser ditas, daquela forma, por alguém irreverente e mal-formado.
Quando escreve, “tenho vergonha destes pseudo-professores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações”, deveria lembrar-se que está a ofender uma classe de gente responsável e não meia dúzia de incompetentes que qualquer grupo profissional suporta. Então, pela forma como escreve, talvez ele seja um pseudo-jornalista, dentro da sua classe, ao comparar os professores que se manifestaram, de forma ordeira, aos “hooligans” do futebol. A forma cínica como os compara aos operários da Lisnave, quando estes se manifestaram, em 1975, é repugnante. Tal comparação, além de irracional, só pode ser dita por alguém de intenções duvidosas e partidárias, ou, então, estar possuído de algo de demoníaco que o impede de analisar os factos de forma isenta, como o obriga a conduta de jornalista.
Valoriza os professores do “sistema” em desprimor dos actuais, dizendo: “lembro-me bem dos meus professores. Não tinham nada que ver com esta gente”. Vê-se mesmo que quem assim fala é um saudosista refinado do “regime” ou então deve ter sido um dos privilegiados, no seu percurso escolar. Assim era a escola de então, só para alguns, como este senhor, não era para todos, como hoje é. Quantos dos seus colegas de escola tão ou mais capacitados do que ele ficaram para trás. Foram condenados ao insucesso e, muitas vezes, por desconhecimento ou negligência do próprio professor. Tenho a certeza que os mesmos alunos de hoje, ensinados com as práticas de então, provocariam um enorme desastre educativo, impossível de controlar. Tenho pena que este senhor não tenha sido um dos muitos disléxicos que foram impedidos, barbaramente, de fazer a sua aprendizagem, só porque davam erros ortográficos ou não construíam bem as frases. Talvez não tivesse chegado tão alto e a sociedade de hoje não estivesse, mentalmente, tão poluída!
Como pode alguém que teve responsabilidade nas maiores escolas de educação paralela, como são os canais de rádio e televisão TSF, SIC e RTP, criticar uma classe que, a todo o custo, tenta combater muitos dos malefícios provocados por alguns destes e outros órgãos de comunicação?
A cegueira de que este homem está possuído, impede-o de olhar para ele próprio e ver todo o lixo que ele produziu, só para ganhar audiências televisivas, enquanto responsável na SIC. Certamente, esse lixo, sim, deve ter contaminado muitos milhares de crianças e jovens que, hoje, frequentam as nossas escolas e têm comportamento indisciplinar.
Portugal não pode continuar a pôr à frente dos órgãos de comunicação gente como esta que não tem respeito pelos outros e, pelo que escreve, de educação pouco sabe. Em todo o seu percurso profissional, de utilidade para a sociedade, pouco mais deve ter feito do que enriquecer-se a ele e a uma boa meia dúzia de empresários.

Artigo publicado no Semanário "A Voz de Trás-os-Montes em 27/03/2008

Saturday, February 16, 2008

Uma classe de confiança

Um estudo recente revela que “os professores” constituem a classe social em que mais confiam os portugueses. Ao contrário, a dos "os políticos" é a que lhes oferece maior desconfiança.
Esta conclusão a que chegou o Instituto Gallup para o fórum Económico Mundial, através da sua sondagem, não é nada de expectante. Todos sabemos que os políticos, há muito, perderam a confiança dos portugueses, pelas tropelias políticas cometidas e abusos de poder.
É comum dizer-se: “cada um tem o que merece”. Por um lado, o dito faz algum sentido, mas, por outro, é contraditório. Neste estudo, a classe política recebeu dos portugueses a menção de “não satisfaz”. No entanto, foi ela que obteve mais proveitos pessoais, ao longo destas três décadas. Ao contrário do que mereciam, todos os políticos enriqueceram e alguns fizeram mesmo autênticas fortunas. Os professores nem sempre foram bem gratificados, mas sempre se preocuparam com uma acção pedagógica coerente com o seu discurso.
Os professores investem e comprometem-se, seriamente, com os seus alunos. É impossível ficar indiferente às questões de uma criança ou jovem, urge dar-lhe uma resposta que, por sinal, requer preparação, persistência e sabedoria. A relação professor-aluno é recíproca, porque, ao darmos, estamos a receber. Com as crianças, ou se gosta do que se faz ou acaba por sentir-se bem com elas. Por isso, o acto de ensinar é sempre gratificante.
Dito isto, dá a impressão que todos os professores são bons professores e, de facto, não é assim. Não é assim, porque ensinar não é fácil, exige vocação e, nos tempos que correm, já não se é professor porque se gosta, mas porque é necessário encontrar uma fonte de recurso ou um meio facilitador de algum bem-estar económico e social. Daí a corrida a esta profissão. Com o desemprego a aumentar e as portas escancaradas das universidades, perante numerus clausus, a classe ficou a abarrotar e, por isso, perdeu qualidade e autoridade. É, portanto, natural que haja bons professores, cultos e empenhados, e outros de má qualidade.
Mesmo assim, a sociedade em geral, admira os professores e reconhece que o seu papel de educadores, neste mundo em mudança, não é assim tão fácil. As crianças e os jovens de hoje não têm nada a ver com os de há trinta anos. Hoje, é mais difícil, ser-se professor duma turma de quinze ou vinte alunos do que, noutros tempos, numa turma de quarenta ou cinquenta. A autoridade que o professor detinha, nessa época, facilitava o processo de “ensinar”, o que não equivale a dizer “aprender”. O professor era uma autoridade detentora de um poder conquistado, umas vezes pela sua sabedoria e simplicidade, outras pelo seu rigor ou excesso de disciplina, na sala de aula. A acção dos professores, hoje, carece de alguma autoridade perdida, mas só é possível recuperá-la pela via da confiança, promovendo uma cultura de responsabilidade. Por isso, esta amostra leva-nos a acreditar que os professores estão no bom caminho.
Uma boa escola não se faz só com bons professores, necessita também de bons alunos, bons auxiliares de acção educativa, bons encarregados de educação e bons administradores. Será que todos estes intervenientes são pessoas competentes e cumprem, plenamente, as suas funções? Não me parece. Os alunos, normalmente, reflectem, a educação dos seus pais, na escola, muitas vezes, má; os pais nem sempre acompanham o crescimento dos seus filhos, em termos afectivos e culturais, ignoram-nos, simplesmente; os auxiliares desempenham funções que pouco têm a ver com a educação, em vez de fazerem vigilância, acompanhando os alunos nos períodos de intervalo ou nas actividades de sala de aula, ajudando o professor, fazem outras tarefas tais como varrer as salas, limpar as casas de banho, servir nos bares; os encarregados de educação, em vez de criarem expectativas nos seus educandos, ficam à espera das notas de fim-de-período para, quase sempre, lhes dar uma repreensão; os administradores tentam controlar o “monstro”, que o ministério lhes criou, o agrupamento, em vez de uma escola autónoma, onde as políticas educativas são difíceis de implementar, dada a sua dimensão.
Está em discussão o novo "Regime jurídico de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário". Esperemos que o governo, nesta fase que antecede a sua aprovação, tenha em linha de conta este voto de confiança nos professores, porque é neles, e na educação que está a chave do desenvolvimento do país.

Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 14/02/2008

Sunday, February 10, 2008

Corrupção em pequena escala

Recentemente, todos pudemos ouvir aquele grito de revolta, proferido pelo Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, contra a corrupção e os crimes de colarinho branco que sempre ficam impunes.
Perante tais afirmações, surgiram, de imediato, quase que em uníssono, os partidos da direita e da esquerda que têm governado este país, exigindo que se proceda a um inquérito. Assim, como se nada tivessem a ver com isso, fazem passar-se por “virgens púdicas” quando, de facto, são eles os responsáveis por este estado de coisas. Ao mesmo tempo que defendiam um inquérito de averiguações, desafiavam o Bastonário a denunciar os verdadeiros prevaricadores, se é que eles existiam. Pareciam ainda ter dúvidas!
Inteligentemente, este responsável judicial não irá apontar nomes, embora, pelo cargo que ocupa, o devesse. Mas, a denúncia nunca traz bons resultados para quem a faz, principalmente quando não se tem poder, o que não é o caso. A Justiça, tal como está, no nosso país, é “forte para os fracos e fraca para os fortes”, conforme o próprio Bastonário o referiu, na sua entrevista a Judite de Sousa. É assim que ela é e é assim que a vemos e sentimos. Basta olhar para as cadeias e ver quem lá está. Gente simples e, às vezes, honesta, porque os mafiosos, os corruptos e os traficantes não têm lá lugar. Em vez disso, passeiam-se, todos os dias, em grandes carros e vivem, faustosamente, em autênticos palácios, sem que nada lhes aconteça.
Quando se deu o 25 de Abril, ninguém podia imaginar que, ao fim de três décadas, pudéssemos estar a queixar-nos de tais injustiças e de tanta desigualdade. Os principais valores e princípios da Revolução estão, assim, comprometidos: a liberdade está condicionada pelo emprego, mas o que existe, neste momento, é trabalho precário, desemprego e insegurança; a solidariedade, desapareceu, há muito, com a perda de valores e do espírito comunitário que se transformou numa desenfreada competição selvagem do “salve-se quem puder”; a justiça é cara, morosa e injusta; as diferenças entre ricos e pobres acentuam-se, cada vez mais.
A vida, duma maneira geral, melhorou, para todos, um pouco, mas, para muitos, melhorou demais. Alguns enriqueceram quase que da noite para o dia, à custa de ordenados chorudos, reformas milionárias, especulação imobiliária, negócios obscuros, branqueamento de capitais ou tráfico de influências.
Os últimos acontecimentos revelam-nos o que se passa, em grande escala, mas também se passam coisas idênticas, em pequena escala, que são autênticos crimes. Não precisamos de sair da nossa cidade para verificar isso mesmo. Vejamos só como muitos políticos e empresários, aqui residentes, se governaram, ao longo destas décadas. Muitos políticos que ocuparam cargos importantes nas nossas autarquias, não só se governaram a eles como também deram bom rumo à vida dos seus familiares e amigos. Em troca de favores, tomaram para eles os melhores lugares ou cargos superiores nas instituições públicas locais. Em Vila Real, há famílias inteiras instaladas em algumas delas. Entre outras instituições, a promiscuidade, a este nível, é de tal forma que sempre existe, nessas pessoas, alguma relação de família ou político-partidária, formando um cerco, onde ninguém mais pode entrar.
Muitos empresários que hoje começam a dar nas vistas, porque parte da nossa cidade começa a ser deles, sabemos bem como enriqueceram. As negociatas descaradas e o compromisso de fidelidade, entre a instituição pública e a empresa fornecedora, por influência política ou de interesses, criaram um esquema que só pode resultar desta maneira: o empresário enriquece, o responsável da instituição governa-se e o estado sai prejudicado.
“Corrupção q.b.” é o ingrediente que os políticos têm utilizado, para gerir o nosso país, há algumas décadas, pós-25 de Abril. São poucos, aqueles que encaram a política e os cargos que ocupam com seriedade. Muitos estão apenas para se governarem a eles, aos familiares e aos amigos. Mas, quem “paga as favas” é, sempre, o “Zé Povinho”.

Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 07/02/2008

Monday, January 07, 2008

Mas que ideia! Um “tamanco”!

Na Rua de Santa Sofia, em Vila Real, o Banif, provavelmente, pensando nos seus clientes e em especial naqueles que são deficientes motores, acaba de construir uma rampa que dá acesso ao seu interior e que permite a utilização da caixa multibanco do exterior através de uma cadeira de rodas.
À partida, até parece ter sido uma ideia interessante e cheia de boas intenções, mas, como diz o ditado, “de boas intenções está o inferno cheio”!
Como é possível, numa das ruas principais da cidade, alguém responsável autorizar a construção de tal “tamanco”? Sim, é isso que parece, não só a mim mas a outros observadores. Um tamanco que pode elevar alguns centímetros, mas que não deixa de ser feio e deselegante.
Por enquanto, limitei-me a fazer uma pequena observação, de ponto de vista estético e em termos de arranjo urbanístico, mas a questão é mais séria.
Uma rampa constrói-se para facilitar o acesso a toda a população. Não deve servir apenas aqueles que circulam em cadeira de rodas, mas também os que se movimentam, normalmente através da marcha ou com alguma dificuldade na mobilidade. Acima de tudo, uma rampa de acesso a qualquer espaço não pode ser, para qualquer cidadão, um obstáculo e muito menos um factor de insegurança ou de exclusão.
Aquilo que acaba de se construir, em frente ao Banif, não é uma acessibilidade, mas sim uma barreira. Embora facilite, de algum modo, o acesso ao banco, como lhe convém, impede qualquer transeunte de seguir em frente, quer se desloque a pé ou em cadeira de rodas, pois obriga-o a descer para um passeio de nível inferior.
Naquele espaço, imaginemos duas situações: um cego com alguma técnica de mobilidade, no seu percurso normal, desce a rua, sobe a rampa, encontra o patamar, desce dois degraus e segue em frente ou aprende a contornar o “tamanco”com a ajuda da sua bengala; um deficiente em cadeira de rodas desce a rua, sobe a rampa e no fim do patamar, com alguma perícia, projecta-se sobre os degraus e... ou, então, faz marcha atrás, sobe a rua, novamente, até encontrar uma rampa, passa para o passeio de nível inferior e, depois sim, segue em frente. Interessantes percursos!
Na arquitectura e no urbanismo, a acessibilidade tem sido uma preocupação constante, nos últimos anos. Actualmente estão em andamento obras e serviços de adequação do espaço urbano e dos edifícios às necessidades de inclusão de toda a população, o que não parece estar a acontecer na autarquia de Vila Real. Por exemplo: as rampas são escassas e algumas resumem-se a simples matacões; os postes, as árvores e os quiosques encontram-se no meio dos passeios; algumas placas de sinalização e alguns toldos de publicidade estão abaixo do nível que é de lei; os sinais sonoros nas passadeiras apenas se encontram no cruzamento do sinaleiro; alguns passeios permanecem, há anos, sem pavimento e com buracos, outros estão ocupados com esplanadas ou repletos de quinquilharias dos comerciantes; os carros invadem os passeios durante horas seguidas, enquanto os agentes da PSP multam os que estão estacionados nos parques pagos.
É bom que a autarquia dê mais atenção a estas situações e se apresse um pouco mais a resolvê-las, porque está a perder a carruagem da inclusão e do desenvolvimento. Certamente já tomou conhecimento, que a ACAPO (Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal) criou recentemente uma delegação em Vila Real, onde promove encontros e actividades com algumas dezenas de deficientes visuais. Por isso, começa a ser comum encontrar cegos, pelas ruas da cidade, nos seus percursos diários, deslocando-se para a escola ou para o seu local de emprego.
É bom que os autarcas aprendam a reconhecer aquilo que está mal feito ou o que é urgente fazer e não seguir o exemplo do autarca de Sabrosa que, em vez disso, face ao artigo “Castros e mamoas não dão votos”, publicado em 22 de Novembro de 2007, neste jornal, se limitou a responder, no semanário seguinte, com uma meia página de nada. Simplesmente, uma montra de vaidades!