Os de Chaves chamam aos de Vila Real "fecha a roda", Porque será?
Certamente, haverá pessoas da nossa cidade capazes de explicar esta “alcunha”, assim, atribuída aos vila-realenses.
Existem histórias brejeiras de outras terras, onde o termo se aplica. Não quero sequer imagina que ele tenha tido aqui a mesma origem. Mas, também não era nada do outro mundo, nem seria mal geral. Então, nos tempos de hoje! Há males piores, como aqueles que vou mencionar. E, aí sim, se aplicaria muito bem a expressão.
No bom sentido da palavra, entende-se por “fecha a roda” alguém que, num jogo ou brincadeira de roda como se faz sempre que se canta o “apita o comboio”, ao assumir o primeiro lugar da fila na posição de “locomotiva”, se vai colocar atrás do último, fechando a roda.
Já todos nós notámos e logo dá conta quem chega de outras paragens que a sociedade de Vila Real funciona, em termos mais ou menos semelhantes, por rodas. Assim, existem, pelo menos, três rodas que correspondem às seguintes camadas sociais: os “óptimos”, os “bons” e os “fraquinhos”. Os “óptimos” são os que se auto-titulam de alta sociedade, aqueles que, normalmente, fazem questão de aparecer nas primeiras filas dos auditórios ou frente às tribunas, sempre que há espectáculos importantes ou comemorações; os “bons”, são aqueles que, não fazendo ainda parte desta elite, se esforçam por lhe pertencer; os “fraquinhos” são o resto da população, independentemente de serem ou não pessoas cultas e bem formadas, como se entende.
Na classe superior que referi existem grupos que se relacionam, entre si, de modo “fecha a roda”. Fazem as suas amizades, desenvolvem as suas conversas, auto-elogiam-se, tomam o chá juntos, mas não em qualquer café, claro. O grupo só se alarga se aparecer alguém mais nobre ou, então, alguém que permita dar um certo “décor” à roda. Se surge um intruso, logo de imediato se fecha a roda e ele fica de fora. Esta gente, às vezes, torna-se simpática e aberta, fora do seu círculo de amigos, numa relação mais individual, mas em grupo, reage com altivez, desvia o olhar de quem passa e não cumprimentam a outra gente que considera “fraquinha”.
Este termo “fecha a roda” também se aplica, perfeitamente, à nossa classe política local, no que toca à defesa dos seus interesses partidários, profissionais e familiares.
Se fizermos um pequeno levantamento, verificaremos que as instituições públicas e algumas semi-privadas se formam nesta base. Basta observarmos quem as constitui, a forma como estão organizadas e a quem encomendam os serviços. Cada uma delas é uma roda. Pelo menos, as instituições ou empresas que laboram com o dinheiro dos contribuintes deveriam ser geridas com mais transparência, seguindo o exemplo que passo apresentar. Uma Câmara Municipal de um concelho vizinho solicitou três propostas para a elaboração do seu boletim a três empresas diferentes. Perante as respostas, optou pela mais económica e publicou os valores das propostas dos concorrentes. Está provado que os trabalhos executados pelas mesmas empresas, com o tempo, perdem qualidade, ficam mais caros, permitem a promiscuidade nos negócios e favorecem uma política de “fecha a roda”. Na diversidade é que está o ganho! Mas os nossos governantes não aprendem, ou melhor, não querem aprender. Porque será?
Recentemente, tivemos conhecimento pelos órgãos de comunicação local, das comemorações do 83º Aniversário da elevação de Vila Real à condição de cidade e as cerimónias de condecoração e entrega de medalhas a algumas empresas e outras tantas individualidades. Pelas palavras proferidas, no momento, Manuel Martins, Presidente da Câmara Municipal, entende que estas distinções são de elevada importância para a comunidade vila-realense, dizendo: “Há pessoas que têm tido um papel relevante, no nosso conselho, um papel acima da normalidade e é por essa razão que premiamos estes cidadãos e entidades com uma medalha de mérito”.
Eu não entendo assim. Isto é puro exemplo de política “fecha a roda”, que beneficia e gratifica quase sempre os mesmos e a mesma classe. Esta prática já está fortemente enraizada na sociedade vila-realense de “faz de conta”. Algumas condecorações até se tornam ridículas. Porque, se há-de galardoar quem sempre teve as portas abertas para o enriquecimento fácil? Ao gratificar estes, quantos ficaram de fora, mais empreendedores, mais sérios, mais dotados. Talvez, com menos oportunidades!
Artigo publicado no Semanário "A Voz de Trás-os-Montes" em 31 de Julho de 2008
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