Ao fim de muitos anos de espera, as populações de Arnadelo e Pomarelhos, da freguesia de Torgueda, começaram já a usufruir da rede de esgotos, recentemente concluída. Das nove localidades da freguesia, foram estas as primeiras contempladas. Resta agora saber para quando as restantes poderão vir a beneficiar deste bem essencial.
Pena foi que este serviço chegasse, tão tardiamente, a estas localidades. Se tivesse surgido há uma dezena de anos, poderia ter impedido a fuga de muitas famílias para a cidade de Vila Real e, assim, evitado a desertificação destas aldeias. Claro que este fenómeno da desertificação não se deve exclusivamente a este factor, mas quantas famílias quiseram construir a sua moradia nestas povoações e só o não fizeram por falta das infra-estruturas básicas, necessárias a uma construção com condições de habitabilidade.
Referindo-me, particularmente à aldeia de Arnadelo, em tempos uma das mais prósperas e com mais habitantes, está hoje transformada numa “aldeia deserta”, ruas completas de casas, sem ninguém para nelas morar. Como foi possível deixar chegar uma aldeia que dista escassos quilómetros de Vila Real a este estado de desertificação? Certamente, todos teremos uma quota-parte de culpa, porque, à procura de bem-estar, abandonamos, de forma fácil, as nossas origens. Mas, o nosso município e os seus governantes são os principais responsáveis por esta situação, porque sempre privilegiaram a cidade, em desfavor do meio rural. Todos os investimentos levados a cabo, nos últimos trinta anos, tiveram sempre uma única direcção, a cidade de Vila Real. Ao mesmo tempo, exemplos contrários poderiam apreciar-se nos concelhos limítrofes, onde as infra-estruturas básicas (caminhos/estradas, redes de água, esgotos e saneamento) levavam alguns anos de avanço.
O procedimento das nossas autarquias faz-se ao contrário do que prevê a Constituição da República. No seu art.º 90, refere que “os planos de desenvolvimento económico e social têm por objectivo promover o crescimento económico, o desenvolvimento harmonioso e integrado de sectores e regiões, a justa repartição individual e regional do produto nacional, a coordenação da política económica com as políticas social, educativa e cultural, a defesa do mundo rural, a preservação do equilíbrio ecológico, a defesa do ambiente e a qualidade de vida do povo português”.
Se reflectirmos um pouco sobre estes princípios, verificaremos que o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, foram completamente ignorados, pelos nossos políticos, representantes da Nação, em geral, e pelos governantes locais, em particular.
Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 17/07/2008
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
No comments:
Post a Comment