“Vídeo de agressão à professora” foi título de notícia, há duas semanas, e, ultimamente, não se tem falado de outra coisa. Uma aluna desafiando, de forma agressiva, uma professora, por esta lhe ter retirado o telemóvel que estaria a utilizar, em plena sala de aula.
Porque razão é que esta notícia teve tanto impacto?
Em primeiro lugar, pela forma como o jornal “Expresso” a descreve e a apresenta, “on line”, acompanhada do vídeo, difundindo as imagens da situação ocorrida. No meu entender, num estilo desnecessariamente “sensasionalista”. Em segundo, pela sua actualidade, pois que, presentemente, se tem discutido muito sobre as políticas da Educação: “avaliação dos professores”, “estatuto do aluno” e “autonomia e gestão de escolas”. Em terceiro, pela sua proximidade e abrangência. É um assunto que diz respeito a todos, “pais e filhos”, e é resultante de um conflito de âmbito escolar.
Sobre o ocorrido, todas as pessoas quiseram dar a sua opinião: na rua, discutiam o assunto, umas com as outras; no local de trabalho, os colegas contavam o sucedido, uns aos outros; nos jornais, os escritores de opinião davam os seus pareceres; na rádio, os comentadores davam a palavra aos ouvintes; na televisão, os comentadores políticos analisavam os factos e apresentavam algumas receitas para a educação; os cibernautas retratavam as imagens e descreviam a situação, com um certo humor.
Sobre o assunto, em questão, ninguém deixou de dar o seu palpite. Parecia tratar-se de uma notícia sensacional do tipo “O homem que mordeu o cão”. Os comentários surgiam, em catadupa, de todas as formas e feitios. Dos mais sensatos aos mais disparatados, mas todos interessantes: “Tenho trinta anos e, no meu tempo de escola, nunca vi uma coisa destas!”, “Duas semanas a lavar casas de banho da escola e resolvia-se o caso... mas não se pode, as crianças são o melhor do mundo!”, “A professora não tem autoridade nenhuma. Viu-se. É o espelho de toda a classe, é o jogo de espelhos em que se transformou esta sociedade.”, “A culpa não é da aluna! A culpa desta situação é dos pais da aluna.”, ”A falta de educação destes miúdos é de bradar aos céus!”, “Alguém sabe o que é uma cana da índia? No meu tempo, a professora tinha uma, na secretária, caso alguém não fosse de todo correcto levava com ela, já para não falar da bela régua de madeira…”, “Acho que, na medida certa, devia ser permitido “bater” nos alunos! Eu levei uns “calduços”, na primária, e não me fez mal nenhum. Não sou nenhuma traumatizada.”, “Esta aluna é um exemplo típico de uma geração “perdida”, uma geração “rebelde”, que se baseia em grupos musicais, telenovelas, internet, etc. Na realidade, esta miúda não passa de uma “pita”, com a mania que é melhor que a professora, que a pode controlar”, “Dão telemóveis às criancinhas, viciam-nas, tornam-nas dependentes desse aparelho, e, depois, não querem que os levem para as aulas?”, “Talvez, um dia, o telemóvel venha a ser um material escolar obrigatório, na aula, como é o livro e o caderno”.
Estes comentários levam-nos a concluir que as pessoas interpretam os factos e dão as opiniões, um pouco da forma como foram ou são educadas, mas, de uma maneira geral, quase todas são unânimes em culpar a aluna, pela “birra” ou “agressão”, considerando que ela deveria ser penalizada. Já, no meu entender, não fará sentido nenhum a sua transferência para outra escola, como castigo a aplicar. Compreendo que seja uma das medidas previstas no estatuto do aluno, mas, nesta situação, não se enquadra. Então, um mau exemplo que não serve para uns, há-de servir para outros? E em termos de aceitação? Que colegas vai ela encontrar? Com quem vai ela fazer amizades?
Este acontecimento, se não fosse filmado e divulgado, como foi, não passaria duma pequena “tempestade num copo de água”. Há, todos os dias, problemas idênticos a estes, nas nossas escolas. E, no entanto, os professores resolvem-nos. É uma questão de saber gerir conflitos. Não podemos branquear os factos, mas temos que enquadrar o sucedido no tempo presente, como reflexo de uma sociedade complexa, em mudança de mentalidades e alteração de valores.
Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 03/04/2008
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
No comments:
Post a Comment