Wednesday, August 13, 2008

Plataformas “Bus” para quê?

Estão a ser instaladas, nas paragens dos transportes urbanos da cidade de Vila Real, umas plataformas que, segundo a Câmara Municipal, irão facilitar a acessibilidade aos cidadãos de mobilidade reduzida.
Pelo teor das notícias, os seus autores acham uma ideia brilhante e um projecto inovador, em termos de acessibilidades. Consideram-se pioneiros, mas não passam de meros seguidores, ao dar como exemplo a cidade de Barcelona, na aplicação da medida. Faz lembrar o Ministério da Educação, quando, há trinta ou mais anos, resolveu importar um modelo de edifício escolar e o implementou, em todo o país, sem ter em conta as diferenças climáticas das regiões. Para o caso, este factor não importa, mas estas duas cidades não têm comparação, em termos de grandeza, trânsito e movimento de pessoas. “Cada coelho na sua toca”! E não se vá confundir as coisas. Vamos, primeiro, pôr em prática aquilo que já existe, que é funcional e não tem custos acrescidos.
Compreendo o esforço que a Autarquia tem feito, através do Gabinete da Mobilidade, para encontrar soluções que permitam melhorar as acessibilidades, mas considero a colocação de plataformas uma medida desnecessária e até inadequada, para uma cidade como a nossa, onde as avenidas são raras e as ruas são estreitas. Mas, como a arquitectura urbanística nunca foi uma verdadeira preocupação para aqueles que a têm administrado, aceita-se a ideia: plataformas de betão, em vez de canteiros. Mais ridículo é querer justificar a sua utilidade, dizendo que as plataformas também servem para impedir que os carros estacionem naqueles locais de paragem. Então, para que servem as autoridades?
Há quatro anos que os transportes urbanos foram implementados na cidade de Vila Real, melhorando, provavelmente, o seu nível de utilização, a cada ano que passa. Inicialmente, foram criados percursos que, penso eu, ainda se mantêm, embora alguns devam ser corrigidos, pelo tempo de demora. Também foram criadas paragens em locais próprios que o motorista nem sempre utiliza. Umas vezes porque o espaço reservado ao autocarro se encontra ocupado por outros veículos, outras vezes porque ao motorista não lhe apetece fazer o desvio. Há, no entanto, paragens em locais impróprios, como, por exemplo, quando elas se verificam nos cruzamentos, nas curvas, ao lado de linhas contínuas e junto de passadeiras para peões e que é imperativo mudar.
Se as paragens estivessem devidamente situadas e sempre livres para o autocarro estacionar, de forma a recolher ou largar os passageiros junto do passeio, evitar se ia a colocação de plataformas que, de modo algum, vêm melhorar as acessibilidades. O desnível que passa a existir entre elas e o passeio também não deixa de ser uma barreira. As plataformas, por si só, já são uma barreira. Só servirão para facilitar a manobra ao condutor, com prejuízo para os outros motoristas que querem prosseguir a sua viagem. Tal como estão, deixam o autocarro implantado na faixa de rodagem, com uma fila de carros atrás, esperando que o motorista do autocarro deixe sair os passageiros, cobre os bilhetes ou verifique os passes dos que entram, impedindo, assim, o normal funcionamento do trânsito.
Esta é uma má medida, mas existem outras que, ao serem adoptadas, poderiam melhorar, substancialmente, as acessibilidades e facilitar a circulação de veículos e peões dentro da cidade. Por exemplo: se fossem modificadas ou desviadas algumas paragens para locais adequados; se a PSP tivesse um papel mais interventivo junto das paragens de transportes públicos e se marcasse mais presença nos locais onde o trânsito aflui com maior intensidade; se a mesma impedisse o estacionamento de carros em cima dos passeios; se rectificassem, em algumas ruas, o sentido do trânsito.
Vejam só! Na nossa cidade, o betão, depois de tanto se esticar para o ar, parece agora querer descansar. E, então, deita-se!

Este artigo foi publicado no Semanário "A Voz de Trás-os-Montes" no dia 14 de Agosto de 2008

Sunday, August 10, 2008

Os “Fecha a Roda”

Os de Chaves chamam aos de Vila Real "fecha a roda", Porque será?
Certamente, haverá pessoas da nossa cidade capazes de explicar esta “alcunha”, assim, atribuída aos vila-realenses.
Existem histórias brejeiras de outras terras, onde o termo se aplica. Não quero sequer imagina que ele tenha tido aqui a mesma origem. Mas, também não era nada do outro mundo, nem seria mal geral. Então, nos tempos de hoje! Há males piores, como aqueles que vou mencionar. E, aí sim, se aplicaria muito bem a expressão.
No bom sentido da palavra, entende-se por “fecha a roda” alguém que, num jogo ou brincadeira de roda como se faz sempre que se canta o “apita o comboio”, ao assumir o primeiro lugar da fila na posição de “locomotiva”, se vai colocar atrás do último, fechando a roda.
Já todos nós notámos e logo dá conta quem chega de outras paragens que a sociedade de Vila Real funciona, em termos mais ou menos semelhantes, por rodas. Assim, existem, pelo menos, três rodas que correspondem às seguintes camadas sociais: os “óptimos”, os “bons” e os “fraquinhos”. Os “óptimos” são os que se auto-titulam de alta sociedade, aqueles que, normalmente, fazem questão de aparecer nas primeiras filas dos auditórios ou frente às tribunas, sempre que há espectáculos importantes ou comemorações; os “bons”, são aqueles que, não fazendo ainda parte desta elite, se esforçam por lhe pertencer; os “fraquinhos” são o resto da população, independentemente de serem ou não pessoas cultas e bem formadas, como se entende.
Na classe superior que referi existem grupos que se relacionam, entre si, de modo “fecha a roda”. Fazem as suas amizades, desenvolvem as suas conversas, auto-elogiam-se, tomam o chá juntos, mas não em qualquer café, claro. O grupo só se alarga se aparecer alguém mais nobre ou, então, alguém que permita dar um certo “décor” à roda. Se surge um intruso, logo de imediato se fecha a roda e ele fica de fora. Esta gente, às vezes, torna-se simpática e aberta, fora do seu círculo de amigos, numa relação mais individual, mas em grupo, reage com altivez, desvia o olhar de quem passa e não cumprimentam a outra gente que considera “fraquinha”.
Este termo “fecha a roda” também se aplica, perfeitamente, à nossa classe política local, no que toca à defesa dos seus interesses partidários, profissionais e familiares.
Se fizermos um pequeno levantamento, verificaremos que as instituições públicas e algumas semi-privadas se formam nesta base. Basta observarmos quem as constitui, a forma como estão organizadas e a quem encomendam os serviços. Cada uma delas é uma roda. Pelo menos, as instituições ou empresas que laboram com o dinheiro dos contribuintes deveriam ser geridas com mais transparência, seguindo o exemplo que passo apresentar. Uma Câmara Municipal de um concelho vizinho solicitou três propostas para a elaboração do seu boletim a três empresas diferentes. Perante as respostas, optou pela mais económica e publicou os valores das propostas dos concorrentes. Está provado que os trabalhos executados pelas mesmas empresas, com o tempo, perdem qualidade, ficam mais caros, permitem a promiscuidade nos negócios e favorecem uma política de “fecha a roda”. Na diversidade é que está o ganho! Mas os nossos governantes não aprendem, ou melhor, não querem aprender. Porque será?
Recentemente, tivemos conhecimento pelos órgãos de comunicação local, das comemorações do 83º Aniversário da elevação de Vila Real à condição de cidade e as cerimónias de condecoração e entrega de medalhas a algumas empresas e outras tantas individualidades. Pelas palavras proferidas, no momento, Manuel Martins, Presidente da Câmara Municipal, entende que estas distinções são de elevada importância para a comunidade vila-realense, dizendo: “Há pessoas que têm tido um papel relevante, no nosso conselho, um papel acima da normalidade e é por essa razão que premiamos estes cidadãos e entidades com uma medalha de mérito”.
Eu não entendo assim. Isto é puro exemplo de política “fecha a roda”, que beneficia e gratifica quase sempre os mesmos e a mesma classe. Esta prática já está fortemente enraizada na sociedade vila-realense de “faz de conta”. Algumas condecorações até se tornam ridículas. Porque, se há-de galardoar quem sempre teve as portas abertas para o enriquecimento fácil? Ao gratificar estes, quantos ficaram de fora, mais empreendedores, mais sérios, mais dotados. Talvez, com menos oportunidades!

Artigo publicado no Semanário "A Voz de Trás-os-Montes" em 31 de Julho de 2008