Saturday, February 16, 2008

Uma classe de confiança

Um estudo recente revela que “os professores” constituem a classe social em que mais confiam os portugueses. Ao contrário, a dos "os políticos" é a que lhes oferece maior desconfiança.
Esta conclusão a que chegou o Instituto Gallup para o fórum Económico Mundial, através da sua sondagem, não é nada de expectante. Todos sabemos que os políticos, há muito, perderam a confiança dos portugueses, pelas tropelias políticas cometidas e abusos de poder.
É comum dizer-se: “cada um tem o que merece”. Por um lado, o dito faz algum sentido, mas, por outro, é contraditório. Neste estudo, a classe política recebeu dos portugueses a menção de “não satisfaz”. No entanto, foi ela que obteve mais proveitos pessoais, ao longo destas três décadas. Ao contrário do que mereciam, todos os políticos enriqueceram e alguns fizeram mesmo autênticas fortunas. Os professores nem sempre foram bem gratificados, mas sempre se preocuparam com uma acção pedagógica coerente com o seu discurso.
Os professores investem e comprometem-se, seriamente, com os seus alunos. É impossível ficar indiferente às questões de uma criança ou jovem, urge dar-lhe uma resposta que, por sinal, requer preparação, persistência e sabedoria. A relação professor-aluno é recíproca, porque, ao darmos, estamos a receber. Com as crianças, ou se gosta do que se faz ou acaba por sentir-se bem com elas. Por isso, o acto de ensinar é sempre gratificante.
Dito isto, dá a impressão que todos os professores são bons professores e, de facto, não é assim. Não é assim, porque ensinar não é fácil, exige vocação e, nos tempos que correm, já não se é professor porque se gosta, mas porque é necessário encontrar uma fonte de recurso ou um meio facilitador de algum bem-estar económico e social. Daí a corrida a esta profissão. Com o desemprego a aumentar e as portas escancaradas das universidades, perante numerus clausus, a classe ficou a abarrotar e, por isso, perdeu qualidade e autoridade. É, portanto, natural que haja bons professores, cultos e empenhados, e outros de má qualidade.
Mesmo assim, a sociedade em geral, admira os professores e reconhece que o seu papel de educadores, neste mundo em mudança, não é assim tão fácil. As crianças e os jovens de hoje não têm nada a ver com os de há trinta anos. Hoje, é mais difícil, ser-se professor duma turma de quinze ou vinte alunos do que, noutros tempos, numa turma de quarenta ou cinquenta. A autoridade que o professor detinha, nessa época, facilitava o processo de “ensinar”, o que não equivale a dizer “aprender”. O professor era uma autoridade detentora de um poder conquistado, umas vezes pela sua sabedoria e simplicidade, outras pelo seu rigor ou excesso de disciplina, na sala de aula. A acção dos professores, hoje, carece de alguma autoridade perdida, mas só é possível recuperá-la pela via da confiança, promovendo uma cultura de responsabilidade. Por isso, esta amostra leva-nos a acreditar que os professores estão no bom caminho.
Uma boa escola não se faz só com bons professores, necessita também de bons alunos, bons auxiliares de acção educativa, bons encarregados de educação e bons administradores. Será que todos estes intervenientes são pessoas competentes e cumprem, plenamente, as suas funções? Não me parece. Os alunos, normalmente, reflectem, a educação dos seus pais, na escola, muitas vezes, má; os pais nem sempre acompanham o crescimento dos seus filhos, em termos afectivos e culturais, ignoram-nos, simplesmente; os auxiliares desempenham funções que pouco têm a ver com a educação, em vez de fazerem vigilância, acompanhando os alunos nos períodos de intervalo ou nas actividades de sala de aula, ajudando o professor, fazem outras tarefas tais como varrer as salas, limpar as casas de banho, servir nos bares; os encarregados de educação, em vez de criarem expectativas nos seus educandos, ficam à espera das notas de fim-de-período para, quase sempre, lhes dar uma repreensão; os administradores tentam controlar o “monstro”, que o ministério lhes criou, o agrupamento, em vez de uma escola autónoma, onde as políticas educativas são difíceis de implementar, dada a sua dimensão.
Está em discussão o novo "Regime jurídico de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário". Esperemos que o governo, nesta fase que antecede a sua aprovação, tenha em linha de conta este voto de confiança nos professores, porque é neles, e na educação que está a chave do desenvolvimento do país.

Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 14/02/2008

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