Sunday, February 10, 2008

Corrupção em pequena escala

Recentemente, todos pudemos ouvir aquele grito de revolta, proferido pelo Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, contra a corrupção e os crimes de colarinho branco que sempre ficam impunes.
Perante tais afirmações, surgiram, de imediato, quase que em uníssono, os partidos da direita e da esquerda que têm governado este país, exigindo que se proceda a um inquérito. Assim, como se nada tivessem a ver com isso, fazem passar-se por “virgens púdicas” quando, de facto, são eles os responsáveis por este estado de coisas. Ao mesmo tempo que defendiam um inquérito de averiguações, desafiavam o Bastonário a denunciar os verdadeiros prevaricadores, se é que eles existiam. Pareciam ainda ter dúvidas!
Inteligentemente, este responsável judicial não irá apontar nomes, embora, pelo cargo que ocupa, o devesse. Mas, a denúncia nunca traz bons resultados para quem a faz, principalmente quando não se tem poder, o que não é o caso. A Justiça, tal como está, no nosso país, é “forte para os fracos e fraca para os fortes”, conforme o próprio Bastonário o referiu, na sua entrevista a Judite de Sousa. É assim que ela é e é assim que a vemos e sentimos. Basta olhar para as cadeias e ver quem lá está. Gente simples e, às vezes, honesta, porque os mafiosos, os corruptos e os traficantes não têm lá lugar. Em vez disso, passeiam-se, todos os dias, em grandes carros e vivem, faustosamente, em autênticos palácios, sem que nada lhes aconteça.
Quando se deu o 25 de Abril, ninguém podia imaginar que, ao fim de três décadas, pudéssemos estar a queixar-nos de tais injustiças e de tanta desigualdade. Os principais valores e princípios da Revolução estão, assim, comprometidos: a liberdade está condicionada pelo emprego, mas o que existe, neste momento, é trabalho precário, desemprego e insegurança; a solidariedade, desapareceu, há muito, com a perda de valores e do espírito comunitário que se transformou numa desenfreada competição selvagem do “salve-se quem puder”; a justiça é cara, morosa e injusta; as diferenças entre ricos e pobres acentuam-se, cada vez mais.
A vida, duma maneira geral, melhorou, para todos, um pouco, mas, para muitos, melhorou demais. Alguns enriqueceram quase que da noite para o dia, à custa de ordenados chorudos, reformas milionárias, especulação imobiliária, negócios obscuros, branqueamento de capitais ou tráfico de influências.
Os últimos acontecimentos revelam-nos o que se passa, em grande escala, mas também se passam coisas idênticas, em pequena escala, que são autênticos crimes. Não precisamos de sair da nossa cidade para verificar isso mesmo. Vejamos só como muitos políticos e empresários, aqui residentes, se governaram, ao longo destas décadas. Muitos políticos que ocuparam cargos importantes nas nossas autarquias, não só se governaram a eles como também deram bom rumo à vida dos seus familiares e amigos. Em troca de favores, tomaram para eles os melhores lugares ou cargos superiores nas instituições públicas locais. Em Vila Real, há famílias inteiras instaladas em algumas delas. Entre outras instituições, a promiscuidade, a este nível, é de tal forma que sempre existe, nessas pessoas, alguma relação de família ou político-partidária, formando um cerco, onde ninguém mais pode entrar.
Muitos empresários que hoje começam a dar nas vistas, porque parte da nossa cidade começa a ser deles, sabemos bem como enriqueceram. As negociatas descaradas e o compromisso de fidelidade, entre a instituição pública e a empresa fornecedora, por influência política ou de interesses, criaram um esquema que só pode resultar desta maneira: o empresário enriquece, o responsável da instituição governa-se e o estado sai prejudicado.
“Corrupção q.b.” é o ingrediente que os políticos têm utilizado, para gerir o nosso país, há algumas décadas, pós-25 de Abril. São poucos, aqueles que encaram a política e os cargos que ocupam com seriedade. Muitos estão apenas para se governarem a eles, aos familiares e aos amigos. Mas, quem “paga as favas” é, sempre, o “Zé Povinho”.

Artigo publicado no Semanário "A Voz-de-Trás-os-Montes" de 07/02/2008

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