Na semana passada, quando passava junto de uma das escolas particulares da nossa cidade deparei com uma situação em tudo idêntica a muitas outras que hoje acontecem com certa vulgaridade na nossa comunidade. Uma criança do sexo masculino, que aparentava ter cinco ou seis anos, sai pelo portão principal do estabelecimento de ensino, agarrada pela mão de sua mãe, presumivelmente, que assim tentava acalmá-la de alguma euforia. Já na parte exterior, de forma inesperada, o miúdo lança uma cuspidela através das grades, para a cara de um seu colega o qual num gesto rápido se apressa a limpá-la. No momento em que tudo isto acontece, só se houve a mãe da criança a dizer, simplesmente, “Isso não se faz!”, e seguiram o seu caminho.
Não sabemos ao certo o que deve ter levado esta criança a cometer um gesto tão insurrecto. Provavelmente será a resposta, a alguma picardia cometida anteriormente pela vítima neste caso, pois sabemos como as crianças se comportam todos os dias nas suas brincadeiras. A picardia é a forma de relação mais usada por elas, nos dias de hoje.
Não quero aqui julgar o comportamento da criança, porque nesta idade ela age ainda de forma impulsiva e nem sempre toma consciência real dos seus actos. Não posso avaliar, no entanto, da mesma forma a atitude da mãe face ao comportamento do filho. Não vou dizer o que ela deveria ter feito, só sei que não devia ter-se ficado por uma ligeira repreensão. Se fosse há duas dezenas de anos atrás, qualquer mãe lhe daria um bom par de estalos. Como agiria cada um de nós nesta situação? Que medida correctiva aplicaríamos no momento?
É fácil, nos dias de hoje, encontrar situações semelhantes, crianças cometendo barbaridades à frente dos seus pais, sem que nada lhes aconteça. Será que os pais de hoje são menos exigentes, mais permissivos ou apenas mais distraídos com os seus filhos? Aquilo que me parece, francamente é que eles são mais negligentes, isto é, não se preocupam com as suas atitudes nem com o prejuízo que eles possam causar a terceiros. É, por exemplo, comum encontrar uma criança a mexer em determinados objectos, que se encontram num estabelecimento ou em casa de um amigo, sem qualquer observação atenta dos pais e, quando algo acontece nem sequer se dispõem a pagar os prejuízos.
Sempre ouvi dizer que “de pequenino se torce o pepino”. Em tempos, este provérbio era levado muito a sério pelos nossos pais e quando algum de nós cometia uma asneira, ou desrespeitava as normas, lá estavam eles a dar-nos aquela dose de correcção, condimentada com algumas palmadas no rabo. O facto é que a receita aplicada, na hora, resultava eficazmente. Naquela altura, por exemplo, não se ouvia um miúdo a chamar “estúpido” ao pai, de forma consentida, como acontece hoje. Os próprios pais dizem: “Lá em casa quem manda é o miúdo!” e querem saber que, às vezes, é mesmo verdade!
Como pudemos assim, preparar as crianças de hoje, para serem os homens de amanhã? Como pudemos hoje, desta forma, ensiná-los a viver numa sociedade que se pretende ser séria, respeitadora da liberdade dos outros?
Vítor Olo
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