Thursday, July 05, 2007

Determinação, coragem e sacrifício.

Acabámos de assistir a uma greve que pretendia ser geral. A falta de convergência política das centrais sindicais desmobilizou alguns sindicatos da UGT e muitos trabalhadores. Por isso, tornou-a menos expressiva.
Esta greve foi considerada, por muitos, uma manifestação política, por ter em conta reivindicações de carácter geral, relacionadas com as políticas governativas. Tratava-se de uma jornada de luta contra o encerramento de serviços de Saúde e de Educação e privatizações nas mesmas áreas, limitação dos direitos dos cidadãos no acesso à Justiça, redução real dos salários, congelamento de carreiras e perda de regalias dos trabalhadores. Por isso, a central sindical que ficou de fora deveria pôr de parte os seus interesses e simpatias por este Governo e juntar-se à CGTP, em defesa dos trabalhadores. Pelo discurso que vinha fazendo, tinha obrigação de, também ela decretar greve.
Este facto, contudo, não impedia quem quer que fosse de aderir a esta jornada de luta, na qualidade de trabalhador Para isso, bastaria ter vontade, espírito de sacrifício e coragem. Vontade, porque é preciso determinação, na hora da verdade; sacrifício, porque é necessário prescindir de um dia de ordenado e, tendo em conta as escassas economias, nos dias que correm, não é fácil; coragem, porque embora sendo a greve um direito adquirido, sempre é necessário enfrentar os patrões, os chefes e, por vezes, os próprios colegas. Particularmente, nesta greve, foi preciso coragem para lutar contra o clima de suspeição criado pelo Governo no sentido de se elaborar listas de identificação dos grevistas, receando que pudessem vir a ser usadas para futuros despedimentos.
Mas, a muitos trabalhadores não só lhes falta a coragem, como, também, têm medo e vergonha de participar numa greve. Têm medo de perder o emprego e vergonha dos próprios colegas. Acham que fazer greve não é para eles. Gente fina é outra coisa! Muitos até fariam greve se pudessem reembolsar o salário desse dia e não serem notados. Mesmo assim, quantos não são os que se apresentam ao serviço, no dia a seguir à greve, de atestado médico na mão, justificando a sua falta?
Os trabalhadores portugueses tiveram uma boa oportunidade para manifestar o seu descontentamento, face às medidas impostas por este Governo que só tem prejudicado os seus direitos, em favor dos grandes grupos económicos. Em vez disso, preferem continuar no seu “choradinho”, lamentando-se, diariamente, no seu local de trabalho, enquanto se deveriam ocupar das suas tarefas profissionais. Dizem que as coisas estão difíceis e que estes governantes são uns ladrões que só pensam neles e nos amigos. Que não deixam de ter alguma razão!
Nunca se ouviu falar tão mal do Primeiro-Ministro e da Ministra da Educação como nos últimos tempos, nas escolas de Vila Real, realidade que eu conheço. No entanto, em duas delas, o número de funcionários e professores grevistas não chegou a uma dezena. Falar mal dos governantes, sempre fica mais barato que fazer greve! Assim, mais vale calarem-se. Alguns até ganham mais do que aquilo que merecem. Por isso, é natural que sintam vergonha de fazer greve.
Ainda, em relação às listas de identificação dos grevistas, sempre entendi que o governo as quisesse, apenas, para fins estatísticos. Não cabe na cabeça de ninguém que, sendo este um governo democrático, pensasse nelas com outra finalidade. Mas, outros tempos virão e, com eles, outros governos sem escrúpulos lhes sucederão, capazes de usar tais práticas, para o que bem lhes convier. Por isso, precisamos de estar atentos e usar a greve em determinados momentos. Ainda bem que a temos e podemos recorrer a ela. Há trinta e três anos atrás, os portugueses não tinham este direito. É preciso que ninguém se esqueça! Agora que o temos, não o usamos devidamente. Quem sabe se, um dia, o queremos e já não o temos!
O mal dos homens é presumir que as coisas más passadas se tornam impossíveis de acontecer no futuro.

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