Sunday, September 30, 2007

Mas que disparate!

Há duas semanas atrás, quando tentava ajudar os pais de um jovem estudante cego a encontrar uma residência para o tempo de aulas, na cidade de Vila Real, deparei-me com uma situação bem pitoresca.
Alguns dias antes, os pais já tinham tentado encontrar alojamento, em algumas instituições de solidariedade social que poderiam oferecer-lhes algumas vantagens económicas, mas as vagas estavam esgotadas.
Inicialmente, o aluno estava matriculado na Escola de S. Pedro num CEF (Curso de Educação e Formação), mas os pais, aconselhados pelos técnicos responsáveis pela sua orientação vocacional, decidiram transferi-lo para a Escola E.B.2,3 Diogo Cão, para concluir o 9º ano, podendo lá beneficiar de um apoio especializado na área de deficiência de que ele é portador.
Frequentar a nova escola, com uma residência de estudantes em frente, estava mesmo a calhar! Dirigimo-nos aos serviços administrativos da residência e perguntámos se havia vagas para jovens estudantes, mas logo nos disseram que não. Então, perguntámos em seguida: E para um aluno cego? A resposta foi a mesma, acrescentando que já existia uma lista de espera com mais de 20 inscrições.
Sem uma solução de alojamento viável, só restava ao estudante passar a fazer diariamente cerca de cento e quarenta quilómetros, de autocarro, porque a sua aldeia fica muito próxima de Chaves, cidade esta onde os recursos de educação especial, também são escassos. Daí, a sua vinda para Vila Real.
Neste momento, o aluno cumpre este trajecto, levantando-se, nos dias de aulas, às seis da manhã e regressando a casa ao fim do dia.
Já é natural, não haver vagas numa residência de estudantes, porque a oferta é sempre menor que a procura e, nesta altura do ano escolar, é compreensível. O que não se compreende é que as vagas só não existem, porque a Coordenação da Área Educativa resolveu ocupar, recentemente, uma ala, ou seja, metade das instalações da residência, com os seus serviços administrativos. Assim, mais de cinquenta jovens ficaram impedidos de poder usufruir de um espaço que lhes é devido. E os principais prejudicados são, como sempre, estudantes oriundos de famílias de baixos recursos económicos.
Como pôde, um departamento de educação, praticamente em fase de extinção, apropriar-se de um espaço cuja função não poderia ter outra senão a sua? Este espaço foi destinado, a jovens estudantes que, por motivos variados, não podem estar junto das suas famílias, enquanto estudam. Por isso, esta utilização torna-se indevida.
Não sei se o governo tem conhecimento desta situação tão pitoresca, mas, quer tenha quer não, ela preenche as suas pretensões economicistas. É fácil aceitar uma proposta destas! Assim, de uma só cajadada, mata dois coelhos: como o edifício é do Estado, já não tem de pagar renda, como o vinha fazendo dos espaços anteriores; depois, como não tem de comparticipar no alojamento de mais de cinquenta vagas preenchidas que corresponderiam ao espaço que a CAE ocupa, acrescem mais economias para os cofres do Estado. Entende-se!
Este acto faz lembrar uma situação semelhante, que aconteceu há dois ou três anos com a Escola das Árvores. Alguém “responsável” autorizou quatro turmas a funcionar em regime de desdobramento, de forma a libertar duas salas de aula para lá instalar os serviços administrativos do Agrupamento D. Dinis, comprometendo, de alguma forma, o bom funcionamento do regime normal de aulas. Na altura, professores e encarregados de educação acharam um disparate tal procedimento. Agora, o disparate é idêntico!
Quem responde por estas situações?

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