A pretexto da “crise” algumas Câmaras, como a de Vila Real, implementam projectos de ajuda às famílias “carenciadas” com acções que são próprias de Instituições de Caridade. No meu entendimento, é incorrecto um município envolver-se em acções como aquela que têm sido divulgada, recentemente, nalguma imprensa regional de Vila Real, intitulada de “Câmara Amiga”.
Compreendo que, para além da sua competência político-administrativa, a autarquia possa também desempenhar um importante papel social e económico, mas não entendo como é possível uma Câmara estar tão disponível para dinamizar acções deste género, quando deveria estar centrada em outras áreas de competência que lhe dizem mais respeito. Também não me parece muito bem a ligação com as empresas, para a angariação de bens alimentares e outros, que mais tarde distribuirá a alguns munícipes. A distribuição de bens às famílias da forma como está a ser feita faz lembrar o “saquinho da propaganda política” recheado de produtos alimentares oferecido por alguns partidos nas vésperas de eleições com um só intuito, de conquistar eleitores e, certamente, votos. Estas acções só favorecem a promiscuidade de competências e aproveitamentos políticos. Perante tal realidade, quer parecer-me que a campanha para as autárquicas já começou.
Compreendo que possam existir algumas famílias carenciadas no nosso concelho e que, face à crise, estejam a necessitar de ajuda, mas não me parece bem ser o município a fazer o trabalho de campo, de forma tão descarada. A Câmara deverá deixar este tipo de acções para as instituições de caridade ou outras organizações de solidariedade social que, essas sim estarão vocacionadas para tal. Além disso, nem sempre a ajuda é dada a quem mais precisa. Há anos, alguns presidentes de Juntas de freguesia deste concelho mandaram distribuir produtos alimentares e insistiam para que todas as pessoas idosas aceitassem a dádiva, independentemente de ter ou não necessidade. Neste momento, são muitas as pessoas a querer comparticipar nas campanhas do Banco Alimentar Contra a Fome ou através de outros projectos de solidariedade social, mas todas querem ter a certeza que a sua oferta chega ao destinatário certo. E, nem sempre acontece.
Critica-se José Sócrates de correr o país a fazer propaganda política, oferecendo o “Magalhães”, que considero de alguma importância, mas as Câmaras fazem o mesmo, oferecendo, desnecessariamente, aos alunos “mochilas” no início do ano lectivo e pagando almoços aos “ velhinhos” e aos professores no final do ano. Como pode assim, uma instituição destas pôr-se a pedir esmola à porta das empresas e às pessoas em particular, para a seguir distribuí-la às famílias de poucos recursos, ou não, e depois esbanjar centenas ou milhares de euros em bugigangas e almoços de confraternização.
Em vez de andar a “dar a sopa aos pobres” que não é a sua principal competência, o Município deveria preocupar-se com outras medidas: implementar projectos urbanísticos sérios, com rigor orçamental, que criem progresso e desenvolvimento regional, impedindo, que muitos jovens e bons profissionais emigrem para outras paragens, em busca de melhores condições de vida; acabar definitivamente com as tarifas de disponibilidade de abastecimento de água, saneamento, lixo e outros impostos que continuam a ser, abusivamente, cobradas pelas empresas municipais, a todos os consumidores, independentemente de serem ou não carenciados. Estas deveriam ser as práticas político-administrativas de uma verdadeira “Câmara Amiga”.
As Câmaras não são Segurança Social nem Instituições de solidariedade social!
Publicado no Semanário A Voz de Trás-os-Montes em 22/01/2009
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