Monday, January 29, 2007

Tantos territórios, para quê?!


A carta educativa de Vila Real está em discussão pública desde 17 de Dezembro, devendo ser aprovada em reunião de câmara e Assembleia Municipal nos próximos dias.
A carta educativa não é certamente uma carta de amor à Ministra da Educação, como alguns poderão pensar. Mas se o fosse, seria ridícula. Porque “todas as cartas de amor são ridículas”, assim diria Fernando Pessoa. Esperemos que esta, não sendo de amor, não seja ridícula! Para já, trata-se de uma proposta de boas intenções. Mas, “de boas intenções está o inferno cheio”!
Reflectindo, seriamente, sobre o assunto, não sei se a criação de territórios prevista na carta educativa, servirá para alguma coisa. Como o concelho de Vila Real é relativamente pequeno, em termos de área, melhor, seria considerar um único território e implementar, na sua sede, quatros ou cinco escolas integradas. Desta forma, todas as crianças e jovens se deslocariam para Vila Real, onde realizariam os seus estudos.
Praticamente, nenhuma localidade do concelho fica a mais de meia hora de viagem, da respectiva sede, nem as acessibilidades são assim tão más. Conhecemos concelhos muito mais extensos em área, e, no entanto, criaram um único centro escolar.
O progresso das aldeias jamais será uma realidade. As políticas não estão, para lá, direccionadas nem se vislumbram iniciativas locais que contrariem esta tendência. Sei, que os centros escolares poderão ser pólos de desenvolvimento, mas para isso, terão que ser construídos nos povoados e não nos descampados, como alguns parecem perspectivar-se. E, uma vez que as aldeias, já, estão condenadas ao despovoamento, o melhor seria, que as crianças dessem início aos seus estudos, logo nas escolas integradas da sede, porque a mudança e a adaptação também cria angústia ou frustração, muitas vezes causas de insucesso escolar.
Para alguns, esta ideia pode parecer disparatada, ou provocatória, mas, será que daqui a vinte ou trinta anos não estaremos a vender os edifícios escolares previstos no meio rural, à semelhança do que, hoje, se faz com as escolas do primeiro ciclo?
A criação dos territórios e dos respectivos centros escolares nas aldeias só servirá para acentuar ainda mais as desigualdades, em termos de ensino. Uma escola de um meio rural vai ser sempre marcada, de forma desfavorável, pelo público que a frequenta, não só pelo extracto social do qual originam os respectivos alunos, mas também pelo ensino de pouca exigência, que, quase sempre, é posto em prática.
Vejamos o que se passa nas escolas do segundo ciclo! As turmas dos alunos da cidade, quando comparadas com as dos alunos das aldeias, apresentam diferenças significativas de desempenho e, em consequência, quase sempre, melhores resultados.
As futuras escolas integradas, bem geridas em termos pedagógicos, poderão de alguma forma, minimizar ou mesmo resolver, estas diferenças. A solução estará na organização de turmas. Porque razão se, hão-de manter turmas homogéneas de alunos que, normalmente, derivam da mesma escola ou da mesma localidade? Porque razão se há-de continuar a estigmatizar a turma “B” ou “C” pelo simples facto de conter alunos de uma aldeia ou bairro? E, porque razão se há-de enfatizar a turma “A”, pelo facto dos seus alunos terem frequentado uma escola da cidade ou determinada instituição “elitista”? Não se compreende!
Não pretendo que esta reflexão tenha qualquer efeito na tomada de decisão, em relação à aprovação da carta educativa, quero apenas alertar os diferentes agentes de educação para estas realidades.

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